terça-feira, 24 de novembro de 2009

That mood indigo

Coragem, é preciso coragem para viver cada dia assim, sendo eu uma pessoa mais que comum, o dobro, o triplo de normalidade. Alguma coisa acontece, porém, quando acaba a novela e eu ataco o pão grudado e o resto do requeijão no fundo da panela com a esponja que não risca. E lá, de repente eu quero ouvir Nina Simone mais que tudo e tenho de novo a idéia de como matar aquele personagem com a garrafa que cai de cima do prédio mais alto da rua. E os outros, para que servem; não me preocupo com os outros assim, na hora de pensar no romance inexistente. Bem quando eu entendi a razão, da hora, da idade. São os sentimentos desagastados que me impedem evitar previsões. Quando é a cartomante do Manoel Carlos a que acerta o futuro da protagonista, mas só dela. Ah, mas a normalidade atinge apenas os coadjuvantes. Deviam todos prestar atenção no coadjuvante que sofre. Não aquele que fala, fala e não diz nada, mas o que fica mudo em cena. E no final é aquela presença que faz o personagem principal aprender uma lição importante. E quem são, afinal, as pessoas que tiram as fotos da família que ficam na sala? Talvez eles sejam os verdadeiros (mais) coadjuvantes de todos. O meu papel. Leva tempo pra gente achar que sabe quem a gente é. E mais ainda pra descobrir que é impossível saber. Me ataca assim, às vezes, aquela vontadezinha de ser alguém, mas logo passa. Volto para a panela bem quando a geladeira faz um barulhinho engraçado grrrr de raivinha conformada. Eu queria só ser isso e pronto
22h22, eu sempre olho o relógio na mesma hora, juro.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Ah, Doralice

Todo mundo tem sempre uma imagem feia - ou bonita, sei lá. Mas a gente sempre tem imagens, mil imagens. Coisa que a gente não esquece, sei lá, vinte anos passados. Eu mesmo, me lembro da celulites da bunda de uma coleguinha, eu tinha que aguentar quando todo mundo sentava no chão da biblioteca pra ouvir a professora contas histórias, pra ver se alguém pegava um livro emprestado. E a menina, nem sei o nome, usava assim uns shorts apertados e eu tinha raiva de sempre ter que olhar praquilo.
Minha cabeça doente, hum, guardou isso de um jeito... pensa bem, porque diabos alguém lembraria de uma cena tão banal mais de vinte anos depois? eu. Que coisa.
Aí tem aquela história clássica - tudo em torno da morte - os diretores de cinema inventaram e ainda vou descobrir quem foi o pioneiro, de que quando vc tá pra morrer, aqueles cinco segundos da queda de um avião por exemplo, todas as imagens da vida do infeliz que morre aparecem na cabeça dele antes do final. Será que não foi algum publicitá rios desses de filminho de cartão de crédito? O negócio é esse, se esse anúncio existir, o meu será uma sequência um pouco mais lenta do que 24 quadros, meio que uma apresentação de slide.
Você, o pequeno príncipe das tormentas tem lá alguns espaços reservados, um deles constituído de sorrisoacordandofingindoquedormia bem sériorisinhorisão. Espero que não seja antes, espero que não seja aos noventa.
E se um dia eu me esquecer de tudo, estiver aqui na doralice com as minhas vizinhas amigas e sobreviventes do holocausto-nicotina - este aqui seria um bom campo de concentração nazi antitabagista - e eu nem me lembre mais os amores e tal pensarei no dia que alguém quis me pregar uma peça e sorriu tão lindo e chocolate pijaminha.
Ainda, quando segundos depois de ter enfiado a cara num prato de miojo - nunca se sabe o tipo de acidente doméstico - e quase perdendo a respiração, lá vem a sandalha e a caixa de correio, a mão materna, o cheiro de rastro, cenas-cenas-cenas, sériosorrisinhosorrisão.
Eu não sei que vida eu teria, não sei o que seria de mim, mas queria muito que fosse isso: vinho barato com gelo, zimmerman aqui e lá, as baratas e o inseticida, o prato aparmegiana, os magníficos shows que não fomos sem dinheiro, o sofá imundo e sete gotas do vinho barato com gelo, vanish, as plantas que só os malucos cultivam. Because you're mine, I walk the line. Mas é justo o contrário

domingo, 20 de setembro de 2009

Parabéns pra você

Um ser redondo, gordo, imóvel. Uma geléia humana, acordo. Vou dormir, e todas as atividades diárias, rolando. Eu que devo ter cada tornozelo pesando duzentos quilos, quase não me movo. Ainda vou de ônibus para o trabalho, ainda pego o elevador, quando deveria ir rolando, sempre. Abro o olho e penso no sonho que tive - rolando. Uma pessoa decrépita, gelatinosa, agonizante. Inútil, incapaz de sentir a dor que tentam lhe impor. Um sorriso patético que engole uma foto de 15x10. Esqueço tudo de mais sagrado que há numa vida. Pense bem o tanto que vivi, lembranças escatológicas, um milhão de sorrisos forçados quando anunciam um flash. A imobilidade de um oráculo que percebe tudo e não consegue - não pode - se vingar. Acordo e tento me lembrar: bebi ontem? Ah, não. Ontem não. Um ser gorduroso e desidratado vale mais que outros tantos pegajosos. Sobre como a bondade pode ser má. E todo o resto de palestras ecoando e o medo de não corresponder e citar pessoas sem ao menos me lembrar que o pensamento não era meu. Quero me livrar do pensamento esférico, do gordo pensamento estéril. Me movo, acordo e vou andar carregando as minahs canelas pesadas. Infinita enquanto posso, um arremedo de solidão que eu absolutamente não sinto.

Mundo escroto. Eu que nem falo palavrão. E não me movo.

Veja, em todos esses mil anos, eu admiro as pessoas com classe. No entanto, é a minha mãe que me veste até hoje - via sedex. E eu saio do trabalho em busca do melhor espeto de coração da cidade. E observo atenta à próxima luta de Mortal Combat. Fulano, 1,83m, 83 quilos, jiu-jitsu. Seu adversário: 1,79m, 90 quilos, free style, o vencedor. E é tão divertido. Nada de classe, a mais comum das criaturas que deseja terna, sincera imensamente não existir. E eu bem poderia largar tudo que estou fazendo para ser a mais incrível detectora de fios de cabelos brancos do mundo. Sabe o mundo?

É sempre o Tom Waits.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Agora é assim, qualquer coisa

Sabe aquele tédio, aquela tristezinha de fim de expediente, aquela fome que batia à meia-noite? Passou, sabe.
Você dorme. Os pássaros mutantes, tenho medo que te perturbem o sono. Mas não, parece. O elefante sorri, quieto na parede amarela. Eu nem preciso de muita coisa agora. Pra dizer o que mudou, não dá. Assim, sem palavras para alguém que tem muito a contar, sempre.
Aprendi que as palestras devem ser raras, para poucos. Eu não tenho mais a solidão infinita, o que vou fazer sem ela, não tenho a menor idéia. E isso é bom.
Jokers, enganadores sem noção, aquele que merece um murro na cara - jabs -, os babacas frequentadores assíduos do banheiro, contadores de migalha - em pares de pura mesquinhez e eu nem tive culpa, ninguém nunca tem culpa -, nativos em geral. E, ah, todas as pessoas do mundo. Eles não são você, não são a gente. É preciso classe. Eu disse antes, li depois, uma ironia.
Tantos dentes na boca de tantos sorrisos lindos, fáceis, deviam ser proibidos. Nenhum ferimento de morte é fatal para mim agora. Deixo que reclamem, deixo que se ocupem de fazer do mundo um lugar pior. Você quebrou a garrafa, e eu, um copo. Juro. Eu cubro seu pé, quase rindo. Meia garrafa de vinho. Prometo, vou dormir.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Urgente

Eu que achei estar protegida, sei agora que a segurança é toda minha. A cidade cenográfica e eu vou, preocupada com mim mesma. No direction home. Afinal, onde estaria se não estivesse aqui? Já nem sei, isso não é bonito. I heard it through the grapevine tinha o maior efeito de se sentir o máximo, achei que era universal, mas me parece que só funciona quando se está a pé. Para não correr o risco de nenhuma conclusão precipitada, faço testes e me desvio do ipê amarelo que diz que chegou. Vou mais longe, faço curvas e não me lembro bem, não me lembro de nada. Os objetos inanimados e toda a verdade sobre eles - nem bons nem maus. Uma cidade cenográfica inteira só para mim e eu me sinto bem. E me pergunto quando estarei livre para finalmente não pensar? E quando será que todos desaparecem e eu continuo acordada? Cadê todo mundo de repente? Mais uma partida e eu vou dormir.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Pronto, venceu

Não é que me falte inspiração, não é que me falte palavras - de fato, prefiro o silêncio prolongado a qualquer blog bem preenchido. É que estive muito ocupada vivendo, por incrível que pareça, por mais incrível. It´s a ne-eeew morning, ne-eew morning. Às vezes, para haver felicidade é só um detalhe, alguém para achar e acender o seu cigarro enquanto você dirige. Sem julgamentos, sempre. Acender o seu cigarro enquanto você troca as marchas e presta atenção nos radares. Cantar desenterrada uma música bem bonita, não precisa nem de cabo pra ipod. O que fizeram de Casa quando acrescentaram os detalhes foi transformar de vez e para sempre a cenografia em arte ('a arte de' sair dirigindo, de enfrentar fortes as asas que se dobram e se multiplicam). A reinvenção do querer bem. Eu que perdi as olheiras num passe de mágica. Talvez já tenha tudo o que preciso agora. E eu posso querer isso sempre?

sábado, 13 de junho de 2009

New morning


Faz um tempo
Eu e as sobras de apelos
Litros de saúde mental
Indo na contra-mão do imediato
Peço um pouco de paciência desinteressada
E encaro como sempre o fim do mundo