Decreto este como o dia mais lindo em um ano e alguns meses aqui. Precisei de uma trilha sonora que fosse bem com o céu azul, os 17 graus (uma aposta) e o sol que toca de leve, muito sultilmente os azulejos portugueses da varanda. Miles Davis gravado em CD genérico. Não, eu não estou bebendo champagne no alto de uma cobertura. E não tem Freddie Freeloader. É a camisa xadrez de sempre com a falta de dois botões que eu não sei pregar, um prato de macarrão, havaianas, o copo de requeijão com chá. Também a música que caiu bem para o reparo que eu mesma fiz na persiana emperrada. Um bom serviço de pregos/parafusos e chave de fenda - eu não tenho martelo. A TV no mudo com legendas, saber tudo sobre a mais nova tragédia da aviação mundial. As estatísticas não mentem. E daqui a pouco, o trabalho dos infernos e mais um belo dia de declínio parcial de memória. É preciso esquecer e ser feliz de novo.
Ainda posso ser como a garota russa que vi outro dia. Levanta cinco pessoas com os dois braços sorrindo para as câmeras. Ou uma jogadora de rugby semiprofissional. I-me-mine. Aos poucos, acostumada com a hostilidade e a ausência.
Eu devia aceitar a proposta de voltar para Casa com todas as facilidades que me ofereceram. Não sei. Talvez seja hoje o dia que ficará marcado como aquele em que nunca mais voltei. O vício agora é outro: partir. Sempre. Agora, culpem os azulejos portugueses pela minha sobrevida neste lugar. Desde sempre, desde antes, são eles os que mais me querem por perto.