Tá bom, eu não descobri a cura de nada nem uma fórmula revolucionária. Mas eu adoro a sua cidade quando eu consigo saber onde estou. Quando eu consigo o melhor itinerário, o melhor jeito de voltar para casa sozinha. E a sensação é de pertencer. Eu sei onde estou. Minha cabeça e o meu corpo no lugar certo. Se eu tivesse como, passaria o resto dos meus dias a organizar caminhos. Hoje foi bem assim. Acordei cedo e descobri onde fica o Morumbi. Não no mapa, mas na vida real. Senti vergonha alheia dos carros gigantes ocupados por mulheres mais velhas deixados com o manobrista na porta do supermercado de uma rede que eu nem sabia que existia. É mais que o Pão de Açúcar, sabe. Acho que corei com o "obrigada, viu?" da senhora que entrou no carro e ficou esperando o menino colocar as compras. Eu sempre achei que a gente mesmo colocava as compras. Não entendo a proporção, não consigo ver a lógica dos carros gigantes. Será que o IPVA de todos eles está pago?
E as casas, bonitas; eu não precisei pegar um táxi. Sim, sou um gênio. E o ônibus direitinho que me deixou quase em casa, A Morte Feliz que acabou no meio do caminho e foi tão como deveria ter acabado, é assim, uma história linda demais e tão importante termina sem querer no meio do caminho, com o mundo funcionando todo ao redor (de manhã o mundo todo funciona) e ninguém tem idéia que o Mersault morreu e entendeu tudo, eu entendi tudo. Com a sacola da enfermeira no colo, tentei ainda economizar as letrinhas e nem consegui. Acaba quando tem que acabar então.
E na parte de caminhar, troquei o sapato que aperta pelo vermelho, mais macio e mais velho. Levei na mochila porque a tolerância do meu pé é mínima. Recebi ainda um par de olhares repreensivos sobre o meu cigarro. Um deles enquanto trocava de sapato. Mas no meio da rua eu ainda posso fumar. A menina pálida-e-chata-vai-cuidar-da-sua-vida não deve ter visto direito a notícia. Porque eu ainda posso fumar na rua. Mesmo que seja a rua das casas gigantes e estúdios de TV.
.:.Sobre quando eu faço drama, sobre quando eu tenho uma cara meio de assustada, sobre quando eu quero escândalo ou elogio (confetes, confetes), sobre quando eu sonho ruim, sobre quando não aguento mais beber. É tudo porque eu ainda estou meio perdida, procurando o melhor caminho, sempre.:.
segunda-feira, 27 de abril de 2009
domingo, 26 de abril de 2009
Eu que não existo, eu que odeio insistir
((Ou: eu que não insisto, eu que odeio existir))
Agora que eu já decorei seu rosto,
faça o favor de ficar mais um pouco.
Você tem o prazo de uma garrafa cheia pra ir embora
ou pra chegar, não importa
Mais que isso é melhor nem aparecer, te digo
Tá eu sei, minha tarefa é esperar
até quando eu quiser e fim
É sempre um caos porque quando preciso de um ouvinte, o que me resta é a TV a cabo. Se ao menos o filme do Nicolas Cage não tivesse no fim, certeza que ele me ouviria. Não sei fazer silêncio, nem querendo. A gente sente a vida nua e crua e corre pro bar. Também isso já me aconteceu. A sensação de abandono que acomete àqueles com um punhado de neurônios & (hum mil) coração. Coisa mais normal do mundo, então foda-se. Já me disseram que eu sou incapaz de amar as pessoas e que amo mesmo o amor. Ainda hoje me elogiaram as covinhas, o sorriso não sei das quantas. Em outros tempos já me disseram que eu saboto tudo e que uso os amigos alheios, invado espaços sem ser convidada. A incrível capacidade de não decorar nada, memória de peixe, gosto duvidoso. Acho que sofro da síndrome da falta de espectadores e/ou ouvintes, pode ser também. Eu tenho tantas qualidades, puxa vida. O fato é que eu não sei o que fazer com tudo isso. Sendo ridícula, talvez.
E esse tom confessional, de onde é que tirei isso? Ninguém vai morrer agora, que exagero. E porque será que eu me convenci do poder de prever? Eu acho que é muito mais uma capacidade de aprendizado (campanhia, recompensa, campanhia, choque) do que algo místico e além do alcance. //I hear in my mind
O desafio é me livrar daquilo que sustenta as horas do meu dia, aí não haverá diferença, aí não haverá a angústia de depois das onze horas, a sensação de fim do mundo e a constatação fatal: ninguém espera por você. Um milhão de reais para quem conseguir esperar. Mas. Uma hora a gente se engana e eu vivo querendo estar errada, juro. E falta um monte para as três. Antes de tudo, a Vontade. Tem quem se faça de difícil, eu me faço de fácil. A Rita Hayworth, fácil.
Odeio a sua cidade quando eu não existo nela. Odeio mais quando todo mundo já resolveu o que fazer da vida e eu simplesmente cheguei atrasada e não consigo me incluir em absolutamente nada. A arte de desaparecer bem quando ah, esquece que eu já esqueci. Ainda serei eu, como você falou na mais profunda lucidez, uma história (mais uma, mais uma) a se contar. Como a Nina Simone bem diz, goddammit
Agora que eu já decorei seu rosto,
faça o favor de ficar mais um pouco.
Você tem o prazo de uma garrafa cheia pra ir embora
ou pra chegar, não importa
Mais que isso é melhor nem aparecer, te digo
Tá eu sei, minha tarefa é esperar
até quando eu quiser e fim
É sempre um caos porque quando preciso de um ouvinte, o que me resta é a TV a cabo. Se ao menos o filme do Nicolas Cage não tivesse no fim, certeza que ele me ouviria. Não sei fazer silêncio, nem querendo. A gente sente a vida nua e crua e corre pro bar. Também isso já me aconteceu. A sensação de abandono que acomete àqueles com um punhado de neurônios & (hum mil) coração. Coisa mais normal do mundo, então foda-se. Já me disseram que eu sou incapaz de amar as pessoas e que amo mesmo o amor. Ainda hoje me elogiaram as covinhas, o sorriso não sei das quantas. Em outros tempos já me disseram que eu saboto tudo e que uso os amigos alheios, invado espaços sem ser convidada. A incrível capacidade de não decorar nada, memória de peixe, gosto duvidoso. Acho que sofro da síndrome da falta de espectadores e/ou ouvintes, pode ser também. Eu tenho tantas qualidades, puxa vida. O fato é que eu não sei o que fazer com tudo isso. Sendo ridícula, talvez.
E esse tom confessional, de onde é que tirei isso? Ninguém vai morrer agora, que exagero. E porque será que eu me convenci do poder de prever? Eu acho que é muito mais uma capacidade de aprendizado (campanhia, recompensa, campanhia, choque) do que algo místico e além do alcance. //I hear in my mind
O desafio é me livrar daquilo que sustenta as horas do meu dia, aí não haverá diferença, aí não haverá a angústia de depois das onze horas, a sensação de fim do mundo e a constatação fatal: ninguém espera por você. Um milhão de reais para quem conseguir esperar. Mas. Uma hora a gente se engana e eu vivo querendo estar errada, juro. E falta um monte para as três. Antes de tudo, a Vontade. Tem quem se faça de difícil, eu me faço de fácil. A Rita Hayworth, fácil.
Odeio a sua cidade quando eu não existo nela. Odeio mais quando todo mundo já resolveu o que fazer da vida e eu simplesmente cheguei atrasada e não consigo me incluir em absolutamente nada. A arte de desaparecer bem quando ah, esquece que eu já esqueci. Ainda serei eu, como você falou na mais profunda lucidez, uma história (mais uma, mais uma) a se contar. Como a Nina Simone bem diz, goddammit
sexta-feira, 17 de abril de 2009
Eu já fui assim, contra
Eu que nunca gostei de espelhos - o único que tenho aqui veio junto com o apartamento - agora mesmo, por acidente, vi meu reflexo no vidro da janela e achei bem razoável. A imagem borrada, nada digital, analógica e meio, hum, dupla. Não, hoje eu não estou escrevendo bêbada. Eu mesma que sou contra os antibióticos que impedem os goles livres, acabei me consultando na farmácia e optando por qualquer coisa que fizesse a minha garganta parar de doer e ser nojenta comigo.
E eu mesma que fui contra a lei antitabaco brasiliense, agora bastante aprovo a democracia (sim, por conceito esta lei paulistana é democrática) européia. É civilizado que não se fume em ambientes fechados, é bem civilizado que se aumente o preço dos cigarros também. Não parei de fumar, no entanto. Sigo com pontos a menos. E como bem me ensinaram os cheiradores do mais puro pó, as bitucas vão junto com o lixo reciclável para não virarem dejetos do rio preto. Troco todos os lugares cheios de pessoas saudáveis (vazias, vazias) pelo quarto com vidros mágicos que de tão antigos que devem ser, duplicam graciosamente o meu rosto. Porque sou superbonita aqui esperando. E fumo o quanto quiser.
Eu mesma que era contra esperar qualquer coisa. E agora também os carros terão airbags de fábrica. Uma maravilha para a nossa previdência & serviço de saúde. Ei, você, é proibido morrer. Vamos dificultar a vi-da. Vamos prolongar a chatice infinita - que tal um pouco de exercício físico por dia? Vamos fumar os carros: com IPI reduzido, por pouco a compra diária de cigarros pode virar prestação mensal de um 2.0. Ou acelerar contra um muro para testar se o airbag é tão legal quanto dizem. Afinal, esta é a minha evolução de não ser mais contra o que for contra o que eu era.
E eu mesma que fui contra a lei antitabaco brasiliense, agora bastante aprovo a democracia (sim, por conceito esta lei paulistana é democrática) européia. É civilizado que não se fume em ambientes fechados, é bem civilizado que se aumente o preço dos cigarros também. Não parei de fumar, no entanto. Sigo com pontos a menos. E como bem me ensinaram os cheiradores do mais puro pó, as bitucas vão junto com o lixo reciclável para não virarem dejetos do rio preto. Troco todos os lugares cheios de pessoas saudáveis (vazias, vazias) pelo quarto com vidros mágicos que de tão antigos que devem ser, duplicam graciosamente o meu rosto. Porque sou superbonita aqui esperando. E fumo o quanto quiser.
Eu mesma que era contra esperar qualquer coisa. E agora também os carros terão airbags de fábrica. Uma maravilha para a nossa previdência & serviço de saúde. Ei, você, é proibido morrer. Vamos dificultar a vi-da. Vamos prolongar a chatice infinita - que tal um pouco de exercício físico por dia? Vamos fumar os carros: com IPI reduzido, por pouco a compra diária de cigarros pode virar prestação mensal de um 2.0. Ou acelerar contra um muro para testar se o airbag é tão legal quanto dizem. Afinal, esta é a minha evolução de não ser mais contra o que for contra o que eu era.
quarta-feira, 15 de abril de 2009
Poderia ser mais bonito

Eu não queria mesmo incomodar, de qualquer forma, é preciso sair de casa e gastar um pouco para perceber onde mesmo eu gostaria de estar. Abro a porta e sinto que finalmente estou em casa. Anote isso, tão importante saber que a minha casa pode ser esta, sozinha. Ah, e os trocados, é preciso tirá-los do bolso, é preciso duvidar - e se afastar de tudo para saber exatamente onde eu gostaria de estar. Caso pudesse, e se eu pudesse fazer ligações nonsense - do além - eu faria. Mas. Não gosto mesmo que alguém se sinta incomodado. E me perguntam por onde eu andei. Digo que estou no mesmo lugar. Porque é exatamente o mesmo lugar, mas com pessoas diferentes. Em outro episódio, um amigo confessa: jurava que não passaria dos 27, mas, veja, isso foi há dois anos. Quando eu tinha sete, tinha certeza absoluta que não faria oito. Dez, vinte anos depois, eu só queria ter um pouco mais do que eu já tive no último par de anos (semanas). E, na verdade, eu estou há um mês num domingo sem fim. Por mais que haja pausas, por mais que eu não queira incomodar, por mais que eu sobreviva sem. Otimamente sem, mas se me perguntarem, digo que nem quero assim. O mundo todo é aborrecido quando nenhuma pessoa é você. E eu nem poderia dizer isso porque nem vou. Falta como. Eu me retiro, foi sem querer.
sexta-feira, 10 de abril de 2009
Nada a dizer
Eu acordo desejando ser outra pessoa. Assim só para não desperdiçar o que eu já sou. De tão ruim, realista ruim. Apenas por haver tantos e mais alguns como eu, gostaria apenas de mudar até o mais alto grau da não-existência. Enquanto você dorme, cuido da reconstituição dos fatos. Não quero ter expectadores para o nascimento da minha própria decadência, infinita. Até a morte. Eu não sei mesmo o que estou fazendo aqui e nada de bonito me ocorre no momento. Nada a dizer. Então, eu e as intrincadas relações mentais feitas com a ajuda do mesmo sangue que provoca os choques necessários ao coração, começamos a sabotar tudo. Minhas pernas ainda não pararam de tremer. Eu sinto muito. Sempre.
Eu choro embora não pertença
De todo a essa queixosa confraria
Pois em mim a alegria penetrou
Até a mais recôndida medula do coração
Eu choro embora não pertença
De todo a essa queixosa confraria
Pois em mim a alegria penetrou
Até a mais recôndida medula do coração
terça-feira, 7 de abril de 2009
Grandes planos até o fim dos meus dias
Because you're mine, I walk the line. Mas é justo o contrário. As suas linhas tortas se misturam rapidamente com todo o monte de informações a que sou submetida todos os dias e dá nisso. Um programa de rádio entrevista um sujeito qualquer (qualquer) e eu desfaço um grande nó, me lembro do que eu gostava de fazer e bum, estou pronta para sair da (minha) linha. E me vem um flash de hoje de manhã, quando fui reparar na conta de telefone. No envelope, duas crianças que acabaram de sair de uma piscina e as letras que dizem "eu escolho amizade verdadeira". Eu escolho não pagar mais essa conta. Nem essa nem nenhuma outra. Me desfaço da geladeira e vou ler Ilíada e Odisséia em sete dias, como antes. Como quando eu mesma tinha certeza ser um personagem do Bukowski. E o plano de não ter mais um tostão furado combina muito melhor com a história dos 30 gatos. Não me importo. Nem que eu morra sozinha num quarto qualquer, e me encontrem 15 dias depois, a cara enfiada num prato de miojo. Ser uma pessoa útil de fato, o inverso de servir qualquer sociedade. Afinal, não fazer o que eu faço hoje em dia já é um favor de mais de 200 anos para a humanidade. Sem aquecimento global, sem crise de mercados, sem câncer e úlcera de ódio mortal diário, sem desinformação. Um ganho geral.
sábado, 4 de abril de 2009
Já é tarde
Tanto corri, e o que me resta são os mais odiosos filmes na TV, uma comida ruim e a mais plena sensação de não existir. Apesar de todos os indícios, apesar de tudo o que eu deixo em volta. Para completar, sou incapaz de realizar os inputs necessários e eficientes para que tudo volte a funcionar. Mas nem vou chamar os técnicos, vejo tudo em chuvisco, pronto. Como pertencer sem existir? Ainda tenho a rede amarela na varanda, os mil cigarros e tantos dias que me esperam, por mais que seja a existência falida. Quero me despedir do Fred. Sem hipocrisia, é um pouco de mim que se vai. O que eu tenho não é grave, não é permanente, nem é incurável. Não é nada. O que eu tenho, além de ser bastante aborrecido, é indizível. O que eu devia ter é um plano B. Em Casa haveria alternativa, não aqui. Amanhã vai fazer sol, juro que vou andar pela parte amarela do dia.
Oh, but anywhere
I'm gonna lay my head
I'm gonna call my home
Oh, but anywhere
I'm gonna lay my head
I'm gonna call my home
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