Me concentro nos tons que o branco de uma camiseta (branca) pode ter enquanto age o sabão em pó. Brinco de misturar com a mão as roupas que já estão na máquina antes do giro completo da 'pré-lavagem', antes mesmo do marasmo do 'molho' quando não há o som agonizante de um troço que te prende no mundo, o seu mundo. Se são as suas peças que se misturam numa guerra louca de aroma, maciez e limpeza, principalmente se é você o autor da arte de tratar bem as peças de roupa. Como se eu pudesse morar ali no balde transparente junto com o OMO, o Confort, o maravilhoso Vanish em pó na camiseta branca. A misteriosa paz interior na contemplação das peças separadas pelos pregadores no varal. Deve haver qualquer segredo.
Fora daqui, um mundo de hipocrisia e solidão - ah, as pessoas como bichos, as pessoas e os bichos. Onde estará o nosso fim? Entre o varal e o resto todo, eu escolho as experiências químicas, o cheiro de amaciante e o céu azul.
Sobre quando o copo amanhece na minha mão, os bêbados e as putas dividem espaço com trabalhadores do dia. Sobre quando eu não sei quem sou no meio da confusão de gente-goiaba, bruxas de verruga no nariz, fumaças. E pessoas que talvez o cigarro tenha desunido antes de tudo. Sobre momentos de não-solidão. Não posso dizer muito, apenas agradeço o fato de eu poder existir também sob olhares e opiniões que me fazem querer viver mais dez minutos e ir contra as previsões de não-vida. Opiniões randômicas, é só o que posso oferecer em troca.
O drama segue, eu volto para a lavanderia. Um erro, dois erros, um milhão de erros que se justificam. Talvez sejam como as roupas que separamos: coloridas, velhas, novas, os pares de meia. E a camiseta branca.
quarta-feira, 27 de maio de 2009
Assinar:
Postar comentários (Atom)

2 comentários:
a maquina de lavar nao deixa de ser um ambiente hostil
Então, eu sempre gosto dos seus textos. Com tantas metáforas, acho que eles realmente explicam quem é vc. Às vezes, acho que somos parecidas. Uma semelhança que vai além do nome, e, muitas vezes, ela chega nos rumos que a vida toma. Ainda precisamos conversar para eu saber o que está acontecendo. Esses dias afastada do jornal estão me fazendo bem. Tô tentando achar o rumo. Conversamos a noite.
Beijos
Postar um comentário