Assim que cheguei em casa, fui acender a luz da cozinha, e nada. Nem a TV. Nem o telefone. A geladeira, desligada. Mas como eu subi de elevador se acabou a luz do prédio? Ah, eu acho que foi aquela conta de maio que sumiu milagrosamente. E não tenho nem celular, que agora deve estar rodando as estradas do Brasil, inclusive. Os orelhões viraram grandes depósitos de anúncios da Carla "atende apenas Jardins, em casa(H/M)", todos eles. Consigo finalmente um que tenha um fone livre. Mas quem não paga a conta não tem a vida garantida pela Eletropaulo. Mesmo que tenha dinheiro. E o 0800 não funciona no orelhão. Achei melhor sublimar, ir atrás de um aparelho celular novo, antes que chegasse a hora de ir trabalhar. Idas e vindas, caixas eletrônicos, uma hora e meia na fila da Claro - se você não tem 60 anos, amigo, você vai aguardar bem sentadinho até que a loja se esvazie por completo. Pior que isso é falar pro cara que distribui senhas que você não veio ver o smart phone, nem entrar na espera pelo iPhone, que você não quer nada com MP3, que você quer um telefone que exclusivamente faça e receba ligações, no plano mais barato que tiver. Aí sim, nem um copo d'água.
Depois descubro que a conta foi paga duas vezes, e que o serviço de religação urgente custa mais de trinta paus, e por esse preço leva só quatro horas, mas que, de fato, leva até oito. E que na hora de cortar a energia, o titular não precisa estar em casa. Na hora de ligar, sim. E o "em que posso ajudar, senhora" do call center vem depois de um milhão de minutos de gravações e mil "aperte o dois para continuar", e que um celular novo com bateria pela metade não aguenta. E que eu preciso do código de barras da conta para ver a opção "conta de água/luz" no monitor do caixa eletrônico, e também que um banho gelado dura mais de vinte minutos, dura mais de duas horas. E, por último, que o técnico da Eletropaulo comenta com todos do prédio que ele veio religar a luz do 86, que foi cortada ontem por falta de apagamento. E te digo, parecia satisfeito o zelador que acha que eu não deveria morar aqui. Agora eu tenho certeza.
quinta-feira, 31 de julho de 2008
segunda-feira, 28 de julho de 2008
Desobediência civil
E o meu carro voa pelas asas e tesouras e coisas de Brasília que ah, só a gente entende. As ruas largas e blá. Aqui tem uma luz grande, que ilumina tudo e eu posso me espalhar, aqui amanhece diferente, tudo limpo, meus olhos descansados. Não é? Mas o que acontece é que isso é bem raro, e agora o Beirute está vazio, temos a lei seca, a lei do silêncio e várias outras. Mas eu te digo, e prego, ah, a desobediência civil. Vamos esquecer que podem existir blitz e guardas e tal. Não é isso sempre? Então, nem é hoje que vão te prender. Fica mais um pouco então. E é bem legal voltar e ver o Fred, lá no lugar dele, sem nem me reconhecer. E tem o cara grisalho que está sempre no Beirute, e eu quase cumprimentei, e disse ah, quanto tempo. Mas ele nem me conhece e nem sabe quanto há quanto tempo estou ausente. Mas, puxa, se a sua profissão é essa, eu tenho mais é que te dar serviço. Confia aí, eu não esvaziaria o Beirute, ou qualquer outro lugar do mundo, se fosse pra concordar com a ditadura do politicamente correto. Você percebe que isso é uma verdadeira imposição - já que temos multa e até prisão - mas, acima de tudo, é uma imposição da qualidade de vida - quando se tem 60, 70 anos - sobre o resto? E o resto é bem mais legal. Bem chato olhar o relógio e pedir a parcial. E eu com a maior saudade disso tudo. Saudadona e só a gente entende e eu nunca vou perder a noção, o privilégio, o resultado, de que só a gente entende. Até nevou na Austrália. Hoje, é.
sábado, 26 de julho de 2008
God keeps score

Não sou rancorosa, isso é fato. Do tanto de respostas atravessadas que eu já recebi quando procurava um endereço, uma referência, uma estação, eu já me esqueci. A não ser quando alguém me pede uma informação. Mesmo a mais óbvia. Como no dia que eu, parada na Augusta - tinha encontrado uma amiga na Consolação por uma coincidência incrível, do outro mundo -, sou abordada por um casal de no máximo 20 anos, totalmente perdido, a menina bonitinha, o menino com uma camisa surrada do Internacional e os dois com aquele olhar pastoso (ou estou muito louco ou eu realmente não sei onde estou, no sentido lógico de perdido) que eu reconheço de longe. O menino vira e pergunta "oiporfavorondeficaaruaaugusta" bem rapidinho e bem baixinho, que é pra não juntar muita gente. E eu digo pra ele com toda a paciência que é ali, bem ali. Mas para ter certeza de ter ajudado, reforço a elucidação do mistério com outra pergunta. Vc tá procurando algum endereço? Jardins, centro? Aí é a vez da menina dizer que eles queriam mesmo é pegar um ônibus para a USP. A minha amiga, que mora por ali, indica o ponto, diz o nome do maldito ônibus e agora sim, eles parecem pessoas normais, situadas e felizes. Sorriem e agradecem. Nós duas sorrimos, "de nada". Mas a menina volta o olhar e solta um "nossa, como os paulistas são gentis". Então tá.
terça-feira, 22 de julho de 2008
Nada acontece por aqui
De novo, as coisas acontecem e eu nada vi, nada sei, nada senti. Desta vez foi na rua, uma explosão e eu ali parada, vendo um monte de bombeiro e polícia. Na verdade estava esperando descer o homem aranha de algum prédio - eu sempre quis ser a Mary Jane. Mas nem foi assim. Também achei que o cara do banco tinha chamado reforços, depois que eu passei quase uma hora tentando resolver como ia fazer depósitos e saques, fui e voltei, do unibanco pro bradesco. E quando eu finalmente consegui fazer as contas - sem calculadora, desespero, notas de cem na mão, carteira na outra, senha anotada no papel - ele me deu aquela encarada. Veio chegando junto, como se eu não tivesse nem o direito de estar ali, ocupando aquele metro quadrado. Porque eu acho que era a única pessoa sem pressa. A mais estabanada, certeza. Sei lá se ele pensou que tinha uma arma na mochila e que eu fosse anunciar o assalto junto com os três boys que lotavam as máquinas de depósito. Eu bem tenho o estilo de quem está só se vestindo "bem" para assaltar. E eu bem roubaria um banco sem o menor peso na consciência. Mas não, todo aquele contingente era para a explosão de um ar condicionado. E nada do Spider Man. Quem sabe na próxima? Também vai ficar pra outra os livros que eu queria comprar e o presente que eu ia dar.
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Abre los ojos
Enquanto você dorme, eu pego um chocolate na máquina e acendo um cigarro. Enquanto você sonha que está na China falando mandarim, me concentro no frio do ar condicionado. Enquanto seu corpo inteiro relaxa ainda com espamos curtos, tento não fazer besteira com tanto a digitar. Quando suas pálpebras denunciam o REM, é a hora que eu vou elaborar as mais criativas frases para reter audiência. O seu sonho já mudou, e eu ainda não terminei tudo. Redijo e-mails importantes, penso no que fazer para solucionar os mais incríveis problemas. E talvez você acorde com um barulho, levante para beber água e volte correndo, fuja do frio, no tempo em que eu me preparo para ir embora. Você ainda tem algumas horas de sono. Você e a humanidade acordam para trabalhar e eu vou começar a dormir. Depois das minhas incríveis horas sem sonho, abro os olhos para ver a luz do sol lutar para durar mais algum tempo entre os prédios encardidos. E eu já esqueci, mas me lembro rápido, que tenho de novo, dali a pouco, voltar para mais uma noite assim.
terça-feira, 15 de julho de 2008
In rainbows
Posso dizer que agora sim, com a vida indo, o celular que toca, as noites em que eu realmente posso sair por aí, escolher aonde ir, com quem ir, quem chamar, eu gosto de novo. Tem finalmente aquela rotina que ah, é uma rotina desregrada, difícil de explicar. Ainda falta trazer a minha casa, minha mudança toda, isso se eu achar de verdade um lugar pra morar que não tenha ratos e baratas, que bata um sol a qualquer hora do dia e que tenha pessoas. Mas isso não importa quando eu posso me mover sem pensar muito. E caminhar, eu gosto bem de caminhar, quando sei onde estou. E isso já acontece e eu já tenho paciência. E já reconheço algumas coisas e posso dizer quem sou eu. E mesmo com o horário de gente esquisita, dou o meu jeito de estar lá, com meu copinho na mão, de sentar e pensar enquanto os freaks fazem a sua cena. Bom, bem bom. Eu me acostumo mais e mais. Já entro de graça num lugar ou outro, quando já fechou. Sou tão fácil de agradar. Mesmo com a geladeira nas costas e as contas a vencer e a greve dos Correios com o meu presente emperrado por duas semanas. E toda a confusão que sobrar.
Juro que não trabalho para ter coisas. Juro que ainda aprendo a trabalhar para comprar e gastar e ter uma casa própria. Hoje não. Preguiça.
Well it's a big big city and the lights are all out
But it's much as I can do you know to figure you out
And I must confess, my hearts in broken pieces
And my heads a mess
And it's 4 in the morning, and I'm walking along
Beside the ghost of every drinker here who has ever done wrong
And it's you, woo hoo
That's got me going crazy for the things you do
Juro que não trabalho para ter coisas. Juro que ainda aprendo a trabalhar para comprar e gastar e ter uma casa própria. Hoje não. Preguiça.
Well it's a big big city and the lights are all out
But it's much as I can do you know to figure you out
And I must confess, my hearts in broken pieces
And my heads a mess
And it's 4 in the morning, and I'm walking along
Beside the ghost of every drinker here who has ever done wrong
And it's you, woo hoo
That's got me going crazy for the things you do
quinta-feira, 10 de julho de 2008
Good day sunshine
Depois de algum tempo, não sei quanto, sem ver a luz do sol, finalmente tive um dia de folga - São Paulo tem dois feriados a mais do que Brasília -, um dia com sol. E da tentativa de receber um pouco da radiação saudável na pele, o que sobrou foi um engarrafamento monstro para chegar até o Ibirapuera e depois uma fila monstra para qualquer coisa que eu queria fazer. Já passava das cinco, o sol já tinha se posto, quando eu finalmente consegui parar quieta. Mas teve o show bem simpático com homenageado presente, o João Donato. Todos sentadinhos na grama, bem adestrado esse público emepebê. Morrendo de frio, preocupada com outro engarrafamento monstro, nem vi tudo. Agilizei minha saída sei lá quanto tempo antes do fim, porque aí seria mais um monte de dinheiro pro taxi. O sol? Farei uma nova tentativa no sábado. Se é que vou acordar. Se é que não vai chover. Se é que eu vou ter saco.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Mi dolor: Rivera

Waking Life - awake
De quando não era só aquilo
Quando foi mesmo não me lembro
as meninas de óculos e meias coloridas
um filme
de tudo que deve ser dito
o mais bonito será vivido
Sim, sim, eu disse sims
porque que se fosse para fazer, faria não.
A não ser que fosse aquilo que eu tinha dito antes, mas não é.
Felicidade de não ser
ponto
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