sábado, 29 de março de 2008

Finalmente uma noite tranqüila

Foi um sonho assim.
Subimos uma ladeira íngreme estamos em sete. Tem a Lílian, a Bia, a Denise e outras pessoas que desconheço. De repente alguém diz que uma festa muito boa fica a dois quilômetros dali. Todos aceitam, mas eu acho melhor não. Um louco joga uma garrafa na calçada, mas o barulho é metálico, seco. Uma Stella resistente. Tem um vento e eu digo que aquilo é a seca do Planalto. O grupo se separa e entramos numa sala de casa, a luz amarela, um lar. E a música é alta, muito alta, algumas pessoas flutuam até uma escada de mármore. Percebo alguém me pedindo um cigarro, é a moça ruiva do big brother. Digo sim, mas no fundo odeio que me peçam assim um cigarro e saiam sem dizer nada. Na próxima vez, ela vem de novo e eu digo sim. Isso se repete, o meu cigarro está acabando, penso. Mas entrego mais um. Ela apenas sorri, tem pés-de-galinha bem marcados, um monte de pintinhas. Aí vem você contando uma vantagem, dizendo que alguma coisa extraordinária aconteceu, mas a música é alta. Uma amiga vira e diz, sorrindo, "eu parto é do precipício". O pressuposto. Rimos e dizemos que vamos embora dali, porque a frase está desconexa, já tinha sido dita antes. Mais um cigarro para a moça ruiva. Rimos mais e rimos alto. Um desconhecido vomita bem do meu lado e alguém grita que um rato morreu. Antes que pudesse entender, deixamos o lugar para comprar mais cigarros. No fim, eu digo que quem sabe sonhar é o Kerouac e que ele sabe viajar como ninguém, porque ele é o mesmo não importa onde esteja. O céu está vermelho, é São Paulo amanhecendo.

Acordei agora, o sol, a casa vazia. Todos tiveram os seus compromissos pela manhã, menos eu. Bom dia, dia.

quinta-feira, 20 de março de 2008

A mulher mais linda da cidade

Antes, de madrugada, a ordem era pular na piscina. De roupa e tudo. O tempo passa e agora o imperativo maior é voltar a pé. Seja de onde for, caminhar muito. Obedecer é uma questão de princípios. Mas há dias de acordar errado, torto, tudo ruim. Vontade de fumar mil cigarros. E o negócio se repete com mais freqüência quando se está longe de Casa. E aí o highlight da semana é um livrinho besta, indecente, e que me faz pensar bastante. E querer encher a cara, também. Mas até pra isso é preciso ajuda, quando se acorda errado. Quem se importa? E esse nem é o ponto. Tenho um poeminha numerado, que eu fiz e queria mostrar. Mas ele deve ficar escondido ainda por um tempo. Simpático o meu poeminha.

Em todo caso. Irresistível é apostar errado:
"já discuti isso com um amigo meu que tem muitos anos de hipódromo. com ele acontece freqüentemente a mesma coisa, que denomina de 'vontade de morrer', o tipo de troço antigo (...) o cara realmente cansa, à medida que os páreos se sucedem, e não resta dúvida de que EXISTE uma certa tendência de jogar tudo pela janela. há uma sensação que pode sobrevir, independente de ganhar ou perder, e é aí que se começa a apostar mal".
Meu bestseller de metrô é o Bukowski (esse aí é da Mulher mais linda da cidade). Me salvou um monte já.

quarta-feira, 12 de março de 2008

E la nave va

Nem vou entrar no mérito geográfico. Falamos o mesmo idioma e não nos entendemos. Não como acho que deveria ser. Difícil explicar. É uma questão maior. A minha questão maior de todas. Aqui no prédio, estão querendo saber o meu grau de parentesco com o locatário. Gente curiosa. E eu prefiro não dizer, por enquanto. Sou uma chinesa vendedora honesta de muamba. E daí? Sou a diarista, oras. E não, as pessoas não entendem. Não é culpa de ninguém. Mas aí um ser (vivo como você) te segura a porta do metrô. Uma enfermeira te faz um curativo no pé e concorda que deve estar mesmo doendo. Você acerta o caminho de ida e volta, mesmo com um sono infernal. Escuta a segunda parte de Come Together. Consegue fazer a mesma cara que todos, sem meter a cabeça na janela para olhar a paisagem. Ar de cansaço, cara de janela, como se você fosse a paisagem. Você finalmente é a paisagem.

As coisas mudam e eu me sinto em casa. Mais alguns dias de não-solidão extraterrestre e já me viciei nisso aqui.

sábado, 8 de março de 2008

Agora eu quero isso

INGREDIENTES:
Rum branco
Limão
Água com gás
Hortelã
Gelo picado
Eu adicionaria açúcar mascavo no fundinho.
Menina mimada.

quarta-feira, 5 de março de 2008

E eu só queria aquilo que me prometeram

Ilustração - Caneta bic em papel branco: homem solitário toma café em mesa xadrez e chora. Discretamente

Tenho a capacidade de voltar ao mesmo lugar no qual, em menos de uma semana, tive a minha lição do dia. Sem querer. O tom colegial me faz lembrar que eu não preciso de mais nada: um copo de cerveja e muitos quilômetros de conversa. Sem contratos, sem qualquer acordo verbal. Quando todo o discurso do mundo se resume na presença - ou ausência - da vontade, eu apenas ajeito o meu chinelo e penso que nunca trocaria a avalanche de sentimentos por um minuto de paz celestial - egocêntrica, autosuficiente, simples e direta. Eu aceito, de bom grado, o caos inevitável. Mas. Prefiro a dor passageira à solidão sem fim. Não sei muito sobre a vida, mas preciso reverberar ignorâncias. E até que foi bem fácil resolver as coisas e ter o controle de volta.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Bom dia

Lúcida, imóvel, deserta, a consciência se encontra entre as paredes; perpetua-se. Já ninguém a habita. Ainda agora alguém dizia eu, dizia minha consciência. Quem? Exteriormente havia ruas falantes, com cores e odores conhecidos. Restam paredes anônimas, uma consciência anônima. Eis o que há: paredes, e entre as paredes, uma pequena transparência viva e impessoal. A consciência existe como uma árvore. Está sonolenta, entedia-se. Pequenas existências fugitivas a povoam como pássaros em galhos. Povoam-na e desaparecem. Consciência esquecida, abandonada entre essas paredes, sob esse céu cinza. E eis aqui o sentido de sua existência: é que ela é consciência de ser demais.

É com a Náusea que eu me lembro o que quero dizer. E esqueço em seguida o que tudo isso significa, me apego. Imagino cenários com possibilidades de mudança. Repetições.
Your face when sleeping is sublime
And then you open up your eyes

sábado, 1 de março de 2008

Você não tem novas mensagens

O melhor pensamento de todos os tempos... desde ontem.

Alvy Singer - I, I thought of that old joke, y'know, the, this... this guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken". And, uh, the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs". Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs (Annie Hall)

O mais absurdo e estranho, a presença na ausência. Eu queria desaparecer na fumaça cinza, na chapa esperando o bife, na água rosa-choque que escorre na calçada após a chuva. Minha existência se esvaindo na fumaça do cigarro. Não precisaria gastar mais esse sorriso bochechudo. Absurdo, estranho e tantas vezes desnecessário.