Foi um sonho assim.
Subimos uma ladeira íngreme estamos em sete. Tem a Lílian, a Bia, a Denise e outras pessoas que desconheço. De repente alguém diz que uma festa muito boa fica a dois quilômetros dali. Todos aceitam, mas eu acho melhor não. Um louco joga uma garrafa na calçada, mas o barulho é metálico, seco. Uma Stella resistente. Tem um vento e eu digo que aquilo é a seca do Planalto. O grupo se separa e entramos numa sala de casa, a luz amarela, um lar. E a música é alta, muito alta, algumas pessoas flutuam até uma escada de mármore. Percebo alguém me pedindo um cigarro, é a moça ruiva do big brother. Digo sim, mas no fundo odeio que me peçam assim um cigarro e saiam sem dizer nada. Na próxima vez, ela vem de novo e eu digo sim. Isso se repete, o meu cigarro está acabando, penso. Mas entrego mais um. Ela apenas sorri, tem pés-de-galinha bem marcados, um monte de pintinhas. Aí vem você contando uma vantagem, dizendo que alguma coisa extraordinária aconteceu, mas a música é alta. Uma amiga vira e diz, sorrindo, "eu parto é do precipício". O pressuposto. Rimos e dizemos que vamos embora dali, porque a frase está desconexa, já tinha sido dita antes. Mais um cigarro para a moça ruiva. Rimos mais e rimos alto. Um desconhecido vomita bem do meu lado e alguém grita que um rato morreu. Antes que pudesse entender, deixamos o lugar para comprar mais cigarros. No fim, eu digo que quem sabe sonhar é o Kerouac e que ele sabe viajar como ninguém, porque ele é o mesmo não importa onde esteja. O céu está vermelho, é São Paulo amanhecendo.
Acordei agora, o sol, a casa vazia. Todos tiveram os seus compromissos pela manhã, menos eu. Bom dia, dia.
sábado, 29 de março de 2008
quinta-feira, 20 de março de 2008
A mulher mais linda da cidade
Antes, de madrugada, a ordem era pular na piscina. De roupa e tudo. O tempo passa e agora o imperativo maior é voltar a pé. Seja de onde for, caminhar muito. Obedecer é uma questão de princípios. Mas há dias de acordar errado, torto, tudo ruim. Vontade de fumar mil cigarros. E o negócio se repete com mais freqüência quando se está longe de Casa. E aí o highlight da semana é um livrinho besta, indecente, e que me faz pensar bastante. E querer encher a cara, também. Mas até pra isso é preciso ajuda, quando se acorda errado. Quem se importa? E esse nem é o ponto. Tenho um poeminha numerado, que eu fiz e queria mostrar. Mas ele deve ficar escondido ainda por um tempo. Simpático o meu poeminha.
Em todo caso. Irresistível é apostar errado:
"já discuti isso com um amigo meu que tem muitos anos de hipódromo. com ele acontece freqüentemente a mesma coisa, que denomina de 'vontade de morrer', o tipo de troço antigo (...) o cara realmente cansa, à medida que os páreos se sucedem, e não resta dúvida de que EXISTE uma certa tendência de jogar tudo pela janela. há uma sensação que pode sobrevir, independente de ganhar ou perder, e é aí que se começa a apostar mal".
Meu bestseller de metrô é o Bukowski (esse aí é da Mulher mais linda da cidade). Me salvou um monte já.
Em todo caso. Irresistível é apostar errado:
"já discuti isso com um amigo meu que tem muitos anos de hipódromo. com ele acontece freqüentemente a mesma coisa, que denomina de 'vontade de morrer', o tipo de troço antigo (...) o cara realmente cansa, à medida que os páreos se sucedem, e não resta dúvida de que EXISTE uma certa tendência de jogar tudo pela janela. há uma sensação que pode sobrevir, independente de ganhar ou perder, e é aí que se começa a apostar mal".
Meu bestseller de metrô é o Bukowski (esse aí é da Mulher mais linda da cidade). Me salvou um monte já.
quarta-feira, 12 de março de 2008
E la nave va
Nem vou entrar no mérito geográfico. Falamos o mesmo idioma e não nos entendemos. Não como acho que deveria ser. Difícil explicar. É uma questão maior. A minha questão maior de todas. Aqui no prédio, estão querendo saber o meu grau de parentesco com o locatário. Gente curiosa. E eu prefiro não dizer, por enquanto. Sou uma chinesa vendedora honesta de muamba. E daí? Sou a diarista, oras. E não, as pessoas não entendem. Não é culpa de ninguém. Mas aí um ser (vivo como você) te segura a porta do metrô. Uma enfermeira te faz um curativo no pé e concorda que deve estar mesmo doendo. Você acerta o caminho de ida e volta, mesmo com um sono infernal. Escuta a segunda parte de Come Together. Consegue fazer a mesma cara que todos, sem meter a cabeça na janela para olhar a paisagem. Ar de cansaço, cara de janela, como se você fosse a paisagem. Você finalmente é a paisagem.
As coisas mudam e eu me sinto em casa. Mais alguns dias de não-solidão extraterrestre e já me viciei nisso aqui.
As coisas mudam e eu me sinto em casa. Mais alguns dias de não-solidão extraterrestre e já me viciei nisso aqui.
sábado, 8 de março de 2008
Agora eu quero isso
INGREDIENTES:
Rum branco
Limão
Água com gás
Hortelã
Gelo picado
Eu adicionaria açúcar mascavo no fundinho.
Menina mimada.
Rum branco
Limão
Água com gás
Hortelã
Gelo picado
Eu adicionaria açúcar mascavo no fundinho.
Menina mimada.
quarta-feira, 5 de março de 2008
E eu só queria aquilo que me prometeram
Ilustração - Caneta bic em papel branco: homem solitário toma café em mesa xadrez e chora. Discretamente
Tenho a capacidade de voltar ao mesmo lugar no qual, em menos de uma semana, tive a minha lição do dia. Sem querer. O tom colegial me faz lembrar que eu não preciso de mais nada: um copo de cerveja e muitos quilômetros de conversa. Sem contratos, sem qualquer acordo verbal. Quando todo o discurso do mundo se resume na presença - ou ausência - da vontade, eu apenas ajeito o meu chinelo e penso que nunca trocaria a avalanche de sentimentos por um minuto de paz celestial - egocêntrica, autosuficiente, simples e direta. Eu aceito, de bom grado, o caos inevitável. Mas. Prefiro a dor passageira à solidão sem fim. Não sei muito sobre a vida, mas preciso reverberar ignorâncias. E até que foi bem fácil resolver as coisas e ter o controle de volta.
Tenho a capacidade de voltar ao mesmo lugar no qual, em menos de uma semana, tive a minha lição do dia. Sem querer. O tom colegial me faz lembrar que eu não preciso de mais nada: um copo de cerveja e muitos quilômetros de conversa. Sem contratos, sem qualquer acordo verbal. Quando todo o discurso do mundo se resume na presença - ou ausência - da vontade, eu apenas ajeito o meu chinelo e penso que nunca trocaria a avalanche de sentimentos por um minuto de paz celestial - egocêntrica, autosuficiente, simples e direta. Eu aceito, de bom grado, o caos inevitável. Mas. Prefiro a dor passageira à solidão sem fim. Não sei muito sobre a vida, mas preciso reverberar ignorâncias. E até que foi bem fácil resolver as coisas e ter o controle de volta.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Bom dia
Lúcida, imóvel, deserta, a consciência se encontra entre as paredes; perpetua-se. Já ninguém a habita. Ainda agora alguém dizia eu, dizia minha consciência. Quem? Exteriormente havia ruas falantes, com cores e odores conhecidos. Restam paredes anônimas, uma consciência anônima. Eis o que há: paredes, e entre as paredes, uma pequena transparência viva e impessoal. A consciência existe como uma árvore. Está sonolenta, entedia-se. Pequenas existências fugitivas a povoam como pássaros em galhos. Povoam-na e desaparecem. Consciência esquecida, abandonada entre essas paredes, sob esse céu cinza. E eis aqui o sentido de sua existência: é que ela é consciência de ser demais.
É com a Náusea que eu me lembro o que quero dizer. E esqueço em seguida o que tudo isso significa, me apego. Imagino cenários com possibilidades de mudança. Repetições.
Your face when sleeping is sublime
And then you open up your eyes
É com a Náusea que eu me lembro o que quero dizer. E esqueço em seguida o que tudo isso significa, me apego. Imagino cenários com possibilidades de mudança. Repetições.
Your face when sleeping is sublime
And then you open up your eyes
sábado, 1 de março de 2008
Você não tem novas mensagens
O melhor pensamento de todos os tempos... desde ontem.
Alvy Singer - I, I thought of that old joke, y'know, the, this... this guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken". And, uh, the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs". Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs (Annie Hall)
O mais absurdo e estranho, a presença na ausência. Eu queria desaparecer na fumaça cinza, na chapa esperando o bife, na água rosa-choque que escorre na calçada após a chuva. Minha existência se esvaindo na fumaça do cigarro. Não precisaria gastar mais esse sorriso bochechudo. Absurdo, estranho e tantas vezes desnecessário.
Alvy Singer - I, I thought of that old joke, y'know, the, this... this guy goes to a psychiatrist and says, "Doc, uh, my brother's crazy; he thinks he's a chicken". And, uh, the doctor says, "Well, why don't you turn him in?" The guy says, "I would, but I need the eggs". Well, I guess that's pretty much now how I feel about relationships; y'know, they're totally irrational, and crazy, and absurd, and... but, uh, I guess we keep goin' through it because, uh, most of us... need the eggs (Annie Hall)
O mais absurdo e estranho, a presença na ausência. Eu queria desaparecer na fumaça cinza, na chapa esperando o bife, na água rosa-choque que escorre na calçada após a chuva. Minha existência se esvaindo na fumaça do cigarro. Não precisaria gastar mais esse sorriso bochechudo. Absurdo, estranho e tantas vezes desnecessário.
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